10/03  -  Retaliação brasileira ameaça levar a guerra comercial com EUA - Diário do Comércio/SP

Retaliação brasileira ameaça levar a guerra comercial com EUA

A decisão do Brasil de aumentar as tarifas de importação de produtos americanos, após uma autorização da Organização Mundial do Comércio (OMC), ameaça provocar uma guerra comercial entre os dois países, afirma nesta terça-feira, 9, o diário econômico britânico Financial Times.

O governo brasileiro anunciou na segunda-feira uma lista de 102 produtos americanos que deverão ter sua tarifa elevada, totalizando cerca de US$ 591 milhões em sobretaxas.

A medida foi anunciada após uma decisão favorável da OMC ao Brasil sobre uma disputa em relação aos subsídios pagos pelo governo americano aos seus produtores de algodão. A OMC autorizou o Brasil a impor até US$ 829 milhões em sobretaxas.

A medida deve entrar em vigor no próximo mês, mas o governo americano espera conseguir um acordo nos próximos 30 dias para revertê-la.

Discussões

O Financial Times observa que a questão deverá ser objeto de discussões entre as autoridades brasileiras e o secretário de Comércio americano, Gary Locke, e o assessor adjunto de segurança nacional para assuntos econômicos, Michael Froman, que chegam ao Brasil nesta terça-feira.

“O Brasil deixou claro que está aberto a um acordo antes de as novas tarifas entrarem em vigor, mas as autoridades enfatizaram que qualquer acordo deverá ser aplicado especificamente ao algodão. Uma possibilidade pode envolver transferência de tecnologia dos Estados Unidos para os produtores de algodão brasileiros”, diz o jornal.

Mas a reportagem observa que é incerta a margem de manobra do governo americano para negociações, já que alterações significativas no programa de subsídios ao algodão demandariam mudanças na legislação agrícola.

“Conseguir a aprovação do Congresso poderia ser difícil”, diz o jornal.

Reação

Em outro texto, o Financial Times comenta que “cada vez mais os parceiros comerciais dos Estados Unidos reagem à pressão”.

Apesar disso, o jornal observa que as economias dos Estados Unidos e do Brasil “são menos dependentes do comércio do que os investidores podem temer”.

A reportagem cita um levantamento da Economist Intelligence Unit segundo o qual as exportações de bens e serviços do Brasil representam apenas 14% do PIB, em comparação com 40% no Chile e na China e 30% no México. A proporção das importações, mesmo tendo dobrado desde 1990, ainda é de apenas 13% do PIB.

Do outro lado, para os Estados Unidos o Brasil representou apenas 2,5% de suas exportações de bens no ano passado.

 

Fiesp discute impacto de medidas

A retaliação brasileira foi debatida ontem pelo Conselho Superior de Comércio Exterior (Coscex) da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), que avaliou de forma positiva a demonstração do Brasil de que está aberto a negociações.

O presidente da Associação Brasileira dos Produtores de Algodão (Abrapa), Haroldo Rodrigues da Cunha, avaliou que a decisão pode abrir um importante precedente para a discussão de subsídios concedidos a produtos como etanol, suco de laranja e carne, entre outros.

Impacto das medidas – Presente à reunião, o diretor do Departamento Econômico do Ministério das Relações Exteriores, Carlos Márcio Cozendey, afirmou que todos os produtos incluídos na lista passaram por uma análise detalhada e por uma consulta pública. Por isso ele não acredita que a medida causará impacto no País. . "O Brasil não está punindo os EUA. Os EUA é que descumpriram as regras da Organização Mundial do Comércio (OMC)", afirmou, acrescentando não acreditar que os norte-americanos adotarão medidas retaliatórias.

Cozendey ressaltou ainda que qualquer sugestão dos EUA para solucionar o contencioso terá de incluir, obrigatoriamente, a redução dos subsídios concedidos aos produtores de trigo.

Entendimento futuro – O embaixador e presidente do Coscex, Rubens Barbosa, avaliou que a lista não é uma forma de pressão, e que o governo Barack Obama tem que resolver o problema com a OMC, já que o país não retirou seus subsídios, conforme determinado pelo organismo. "Obama está enfrentando problemas para aprovar seu novo plano de saúde e em outras frentes. Por isso, neste momento o comércio exterior não é uma prioridade para ele", disse.

De acordo com o Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC), a relação de itens representa US$ 591 milhões de um total de US$ 829 milhões a que o Brasil tem direito.  O restante deverá ser aplicado em propriedade intelectual e serviços.

 

Retaliações não afetarão economia

O aumento do Imposto de Importação para produtos dos Estados Unidos não deve causar impacto significativo na economia do País. Especialistas acreditam que a pressão sobre os importados norte-americanos não se refletirá no bolso do consumidor brasileiro, mas também não fará com que o governo de Barack Obama reduza os subsídios ao algodão. A medida teria caráter mais simbólico – com o Brasil marcando posição na Organização Mundial do Comércio (OMC).

Trigo – Com exceção do trigo, os produtos incluídos na lista dos que poderão ser sobretaxados não têm representatividade na pauta das importações brasileiras dos EUA. E até mesmo o trigo norte-americano já vinha perdendo espaço no Brasil. Em 2008, as importações do produto dos EUA atingiram US$ 318,5 milhões. Mas as compras caíram para US$ 45,4 milhões em 2009.

Porém, há uma preocupação para esse ano. Como a safra argentina de trigo foi ruim, os moinhos brasileiros acreditam que terão de comprar mais dos EUA, agora a um preço mais elevado, já que a taxa de importação do cereal deve subir de 10% para 30%.

Alternativas – Ainda assim há uma saída para os moinhos brasileiros. O trigo canadense já vinha roubando espaço do norte-americano, e agora pode ser a alternativa para manter os preços do cereal compatíveis com os atuais. Bruce Burnett, diretor comercial da Canadian Whest Board, empresa responsável pela comercialização de maior parte do trigo canadense, já declarou ontem que "os moinhos brasileiros poderão preferir comprar o cereal canadense por conta da sobretaxa ao trigo norte-americano"

Impacto – Os demais produtos, da lista de 102 itens que podem ter o Imposto de Importação elevado, respondem por menos de 1% das importações brasileiras dos EUA.

A Associação dos Distribuidores e Importadores de Perfumes, Cosméticos e Similares (Adipec) diz que as compras de produtos para o segmento representam menos de 5% do total importado, já que a maior parte vem da Europa.

Veículos trazidos dos EUA também serão sobretaxados. O Impostos de Importação desse item subirá de 35% para 50%. A Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea) diz que  "a inclusão de automóveis na lista preocupa". Mas a entidade não diz qual seria o impacto da medida no setor. A importação de veículos norte-americanos é pequena. A Chrysler é uma das marcas mais afetadas. Ainda assim, a empresa diz que somente "os modelos importados dos EUA representam de 10% a 15% dos seus produtos que entram no Brasil". A maior parte dos veículos da empresa são importados do México, Áustria e Canadá.

Inflação – Para André Biancareli, professor do Centro de Estudos de Conjuntura e Política Econômica da Unicamp, a medida do governo brasileiro não causará impacto na inflação. "É exagero achar que o preço do pãozinho vai aumentar por causa da retaliação. Aumentaria caso o trigo argentino, nosso principal fornecedor, fosse taxado. Esse é um tipo de discussão que tende a gerar mais calor do que luz."

O professor da vê a retaliação como simbólica. "A medida mostra que o Brasil finalmente começa a jogar com as regras do mercado internacional. Mas é ilusão achar que os subsídios norte-americanos vão reduzir. Uma redução de subsídio depende de momento político, precisa passar pelo congresso americano. É algo complexo", conclui Biancareli.

Proposta – Visitando o Brasil para participar de um fórum empresarial, o secretário de Comércio dos Estados Unidos, Gary Locke, afirmou ontem que seu governo fará uma boa proposta de negociação para o Brasil. Ele se reuniu com os ministros Dilma Rousseff (Casa Civil) e Miguel Jorge (Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior).

Assunto é destaque no exterior

A adoção de retaliações comerciais pelo governo brasileiro recebeu ontem a atenção da imprensa internacional. O serviço de notícias canadense da agência Reuters, por exemplo, avaliou que as exportações de trigo daquele país – que é atualmente o sexto maior produtor mundial - poderão ser beneficiadas pela medida.

O texto citou declarações do diretor da Canadian Wheat Board, Bruce Burnett, para quem a decisão do Brasil representa uma importante oportunidade competitiva. "Em um ano como este, em que o mercado de trigo é muito competitivo, seria ótimo ter uma vantagem como essa", avaliou.

Abastecimento  – O suprimento do mercado brasileiro de trigo também foi citado no texto da agência, que trouxe a opinião de um trader de São Paulo, não-identificado, segundo quem será necessário que o País busque outros fornecedores para compensar a ausência do trigo norte-americano – abrindo espaço para Canadá, Rússia, Polônia.

Para o gerente-geral e vice-presidente da Alfred Toepfer (empresa canadense que comercializa o trigo da Wheat Board), Lawrence Yakielashek, as exportações do produto ao Brasil – que em 2008/2009 totalizaram 143 mil toneladas – poderão subir para algo de 350 mil a 400 mil toneladas em 2009/2010. Contudo, ele ponderou que o tribo canadense perde em termos de preço para o da Rússia, mais competitivo.

Posição dos EUA – No Reino Unido, o Financial Times também deu destaque ao assunto, e abriu espaço para a opinião do conselheiro da Miller & Chevalier, Jon Huenemann, para o qual a situação só poderá ser resolvida se a oferta norte-americana ao Brasil for “significativa”.

No site da BBC, o economista-chefe do National Cotton Council, Gary Adams, defendeu os subsídios dos EUA aos produtores de algodão. Já o diretor-executivo do Brasil-US Business Council, Steven Bipes, afirmou que o governo norte-americano deve cumprir as determinações estabelecidas pela Organização Mundial do Comércio (OMC).

A BBC submeteu ainda o assunto à opinião de seus leitores, questionando o impacto das medidas para as relações comerciais entre EUA e América do Sul.

Poder de barganha – Para o setor de comércio exterior brasileiro, as medidas foram vistas como um importante instrumento de negociação para o País, especialmente em acordos que envolvam questões como a abertura à carne e ao etanol brasileiros. "O lobby do setor agrícola norte-americano é muito forte. Medidas como essa pressionam os empresários a exigir a derrubada dos incentivos aos produtores locais", apontou o gerente de importação do Grupo Aduaneiras, João dos Santos Bizelli.

 

Aumento do preço do pão é pura especulação, diz Miguel Jorge

O ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, Miguel Jorge, declarou hoje, 9,  ter se surpreendido com as notícias de que o preço do pãozinho aumentaria no Brasil em razão da inclusão do trigo na lista de produtos dos Estados Unidos que podem sofrer retaliações do Brasil. "Isso é pura e exclusivamente especulação em torno de uma medida que será inócua em relação aos preços", afirmou, lembrando que os EUA são apenas um pequeno e esporádico fornecedor de trigo ao Brasil.

Miguel Jorge afirmou também ter ouvido queixas do setor têxtil por conta da inclusão do algodão na mesma lista. Ele lembrou que além dos EUA, há outros fornecedores de algodão para o Brasil, como o Egito e a Índia. O ministro ainda acentuou que estabeleceu dois conceitos básicos para formulação dessa lista por um grupo técnico da Camex. O primeiro era não provocar prejuízos no mercado interno, em termos de abastecimento, e o segundo, que a imposição da retaliação não gerasse aumento de preços. "Senão seria um tiro no pé", disse.

Encontro

Miguel Jorge afirmou que nenhum dos representantes do governo norte-americano com os quais se reuniu hoje apresentou proposta para a negociação de uma alternativa para as retaliações comerciais do Brasil aos Estados Unidos. Ele explicou que não tinha tal expectativa, visto que recebeu o secretário de Comércio, Gary Locke, e não um representante do USTR, órgão da Casa Branca responsável por negociações comerciais.

Miguel Jorge e a ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, terminaram no início da tarde um almoço com Locke, outras duas autoridades americanas e os presidentes do Fórum CEO. Nesse encontro, tampouco foi tocado no tema das retaliações. Segundo Miguel Jorge, as conversas giraram em torno dos acordos para eliminar a bitributação, na área de energia e de cooperação para o desenvolvimento e a inovação na geração de energia limpa de segunda e terceira gerações.

Questionado sobre o andamento das possíveis negociações entre Brasil e EUA para evitar as retaliações, Miguel Jorge declarou que não há nada ainda marcado, mas que haverá um encontro entre autoridades brasileiras e o representante de comércio dos Estados Unidos, Ron Kirk, no início de abril.

O ministro insistiu, mais de uma vez, que não há nenhuma chance de o Brasil recuar em relação às retaliações, caso não haja o cumprimento das determinações da Organização Mundial do Comércio (OMC) pelos Estados Unidos. Ele acrescentou que tampouco os Estados Unidos pediram algo parecido com isso. "Os Estados Unidos nunca fariam um pedido como este", disse.

Miguel Jorge também mostrou-se pessimista com relação à possibilidade de contrarretaliações dos Estados Unidos ao Brasil. "Os EUA já se valeram de retaliações, são criadores da OMC e fazem parte dela", disse.