16/08  -  “Lula aceita todo mundo” - Folha de PE
“Lula aceita todo mundo”
GILBERTO PRAZERES
 
Com o pretexto de participar de um ato contra a instalação de um incinerador de resíduos sólidos em uma área de reserva ambiental no município de Moreno (Região Metropolitana), o deputado federal Fernando Gabeira (PV/RJ) aportou, na última sexta-feira, no Estado. Ele, na verdade, aproveitou a estadia em solo pernambucano para discutir política com lideranças locais e com o governador de Minas Gerais e presidenciável, Aécio Neves (PSDB). O verde abriu espaço na sua agenda para dar esta entrevista à Folha, onde afirma que o presidente “Lula (PT) é uma lavanderia” por resgatar políticos que “estavam na lata do lixo”, além de assegurar a ex-ministra Marina Silva, que hesita em deixar o PT para desembarcar no PV, como melhor alternativa para governar o País.

O senhor declarou recentemente que o presidente Lula tem se posicionado forma contrária à ética nos últimos escândalos que eclodiram no Congresso Nacional. Essa afirmação não soa estranho para um ex-petista que defendeu a candidatura do presidente?
Soa estranho, porque eu participei de todas as campanhas até 2002 e lamento que isso tenha acontecido. Eu penso que existem dois Lulas. O que tinha um projeto de transformação do País e o Lula que chegou ao Governo. Esse último, deixou de lado um pouco o processo de transformação porque ele quer permanecer no Governo. Então, é muito comum isso de que quando se chega ao Governo, ao invés de realizar aquilo que estava prometido, a preocupação maior é de como continuar no Governo. E ele faz isso tudo porque acha que é o melhor caminho para continuar. Nesse caso agora, para que ele continue através da ministra Dilma Rousseff.

E esse fazer tudo inclui o resgate de figuras políticas antes criticadas?
É o resgate de pessoas que estavam na lata do lixo, como o senador Fernando Collor (PTB/AL). Além do Renan, do Sarney... Todos que quiserem, que entrem. O Lula aceita todo mundo. Ele está pronto. Lula é uma lavanderia pronta para lavar o que for necessário.

Tudo em prol da governabilidade?

É uma ideia de governabilidade para vencer sempre, em vez de envolver a população. Perderam na questão da CPMF, mas conseguiram outra forma de se arrecadar mais. O Governo não precisa vencer sempre e a todo custo. Tem questões que, mesmo com uma derrota, pode-se contornar de outra forma.

A ex-ministra Marina Silva é a melhor alternativa em contraponto a essa visão de governabilidade?
A Marina é definitivamente a única proposta nova para o País. Tem uma visão moderna que se encaixa dentro das necessidades do Brasil. A crise econômica tem articulação com a crise ambiental. É preciso se destacar outras prioridades, além dessa governabilidade, defendida a todo custo pelo governo.

Com a Marina as questões ambientais passam a protagonizar parte do debate político. Esse é um diferencial que pode fazer a sociedade encarar essa opção como interessante para o País?

A Marina é diferente por isso também, mas ela poderá imprimir em papel diferente do Brasil no mundo. O planeta vive hoje um momento de angústia em torno do aquecimento global. E o Brasil é uma potência ambiental. Nenhum país tem tanta água como nós temos, nenhum país tem tantas espécies de animais, nem produz tanta energia limpa quanto nós produzimos. Então, o Brasil está interessado na preservação do planeta e tem condições de liderar esse processo. Hoje a posição ainda é muito tímida, porque a gente ainda está com a cabeça presa ao passado. Ela levaria a gente a uma posição internacional, de liderança num campo fundamental, que é a passagem de uma sociedade com alto nível de carbono para baixo nível de carbono.

Para essa mudança nos níveis de carbono seria fundamental investimentos governamentais ou isenções fiscais em casos como a produção de automóveis elétricos, por exemplo?
Estamos próximos do carro elétrico brasileiro. Eu já utilizei um carro elétrico numa campanha eleitoral (2002) para fazer a propaganda da ideia do carro elétrico. Mas o Brasil conseguiu, num determinado momento, achar um caminho que é o carro a álcool. Que passou a ser uma das soluções, o que inibiu um pouco a passagem para a utilização de automóveis elétricos. Mas, de qualquer maneira, eu acredito na entrada do carro elétrico e no avanço também de veículos em hidrogênio, que aqui ainda são muito pouco utilizados. Agora, nós também temos que pensar que a limitação hoje dos carros é causada pela poluição. É também pela própria estrutura do trânsito. Não cabe mais carros! Tem mais do que poderíamos suportar nas grandes cidades. Não adianta nada uma limpeza colossal se você não se move em muitos lugares. Em muitos momentos e em muitos lugares, você consegue andar mais rápido a pé do que de carro.

A direção nacional do PT sinaliza que pode trabalhar para manter  Marina Silva na  legenda para, assim, inviabilizar a candidatura dela à Presidência da República pelo PV. Como essa hipótese é encarada pelo senhor?
Na minha análise, o processo dela dentro do PT está encerrado e não há nenhum outro partido no horizonte que possa atraí-la. Eu acho que Marina jamais vai deixar de atuar politicamente. Daí a minha conclusão de que, encerrada a etapa dela no PT, começará, certamente, o ciclo para ela vir para o Partido Verde. Feito o Chico Mendes. Nós temos uma longa relação com o PT do Acre. Lá, somos partidos irmãos. Sempre estivemos juntos e com essa questão de que não há espaço dentro do PT, ela vem para o PV.

No caso de uma desistência da ex-ministra em se candidatar para Presidência da República, o diretório nacional do PV continuará sua campanha para filiá-la? O senhor seria uma opção para a disputa pelo Planalto?
Vamos recebê-la de braços abertos. Nem que seja para dar aulas. É uma figura importante que tem uma história e comprometimento com as causas defendidas pelo PV. A sua filiação vai nos honrar muito.  E eu não seria candidato a presidente de novo. Como trabalhamos com o nome da Marina, deverei ser mesmo candidato ao Governo do Rio de Janeiro.

Na campanha à Prefeitura do Rio de Janeiro, o senhor acusou seu adversário, o hoje prefeito do município Eduardo Paes (PMDB), de utilizar de panfletos apócrifos, onde o senhor era apontado como homossexual e viciado em drogas...   
Isso daí era barato. Disseram até, em centenas de milhares de panfletos, que eu iria proibir o feriado de Nossa Senhora da Aparecida (padroeira do município) e uma série de coisas que eram bastante importantes para a população mais pobre. Fizeram tudo, inclusive, distribuíram cestas e kits escolares na boca de urna. Merenda escolar na boca de urna. Fizeram tudo o que foi possível para evitar e, no final , decretaram um feriadão para que a população deixasse o Rio de Janeiro. Cerca de 150 mil pessoas num universo de cinco milhões deixaram a cidade nas proximidades da eleição.

O que vai mudar na sua campanha para o Governo do Estado em relação às estratégias utilizadas durante a disputa pela Prefeitura?
A primeira deles é que devo ser mais consciente do processo. Asseguro que a internet ocupará cada vez um papel importante, porque antes ela ocupou mais uma função de comunicação para organização. Nessa nova campanha, ela vai desempenhar um terceiro papel que é o da arrecadação. Vai ser possível legalmente captar recursos pela internet. Isso vai permitir que a gente se liberte um pouco dos financiadores clássicos.

Assim como o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, fez?
Mais ou menos. O Obama arrecadou muito pela internet. Nós, lá no Rio de Janeiro, queríamos captar recursos pela internet... Tínhamos um programa pronto para isso, mas o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) não quis. O século XXI só está chegando agora em 2010... Tudo bem, ainda tardio, mas é bom que ele chegue e nós vamos poder usar esse recurso.

E quais partidos abraçariam a sua candidatura ao Governo do Rio de Janeiro?
Já existe uma sinalização de apoio do PPS, DEM e o PSDB. O que nos renderia um tempo de aproximadamente oito minutos na televisão, que é outro mecanismo necessário para se fazer campanha. Teremos tempo para mostrar nossas propostas.

A candidatura da Marina Silva não afastaria o apoio do PSDB do seu nome no Governo do Rio de Janeiro?
É razoável ter o apoio do PSDB também num segundo turno. Mas isso só vamos discutir nesse caso de segundo turno. Temos uma simpatia com o governador de Minas Gerais, Aécio Neves, e o de São Paulo, José Serra, onde, em ambos os casos, o PV participa do governo.

Noutro lado, muitos analisam que a candidatura da Marina Silva à Presidência da República inviabilizaria o lançamento de Heloísa Helena pelo PSOL. Nesse caso, o PV estaria aberto para receber o apoio psolista?
Eu tenho esperança que haja essa aproximação. Estamos abertos para receber. Há uma possibilidade de entendimento, mas evidentemente vai depender de uma conversação. Eu creio que o PSOL não encontraria no universo político brasileiro outra posição mais próxima, embora não seja idêntica a deles.

Na semana passada o senador pernambucano Marco Maciel (DEM) afirmou que a atual crise do Senado é uma consequência da não realização da reforma política. O senhor concorda?
Concordo parcialmente. Eu acho que é importante a reforma política, mas ela está sendo utilizada, neste momento, como consolo e para a gente não intervir imediatamente. Eu não sei se o senador Marco Maciel disse que é importante a queda do Sarney (PMDB). Possivelmente ele não disse. Então, as pessoas que querem evitar a conjuntura imediata, a encrenca de agora costumam apelar com a reforma política. O que é uma velha tática que nós usávamos também na esquerda. Queremos uma greve! Não! Queremos uma revolução ! (sorriu) A reforma política é importante, mas é importante também que a gente resolva os problemas daqui agora. No caso do Senado é claro... São 11 mil funcionários para 81 senadores. O orçamento deles é superior ou idêntico ao da Prefeitura de Porto Alegre (RG). Tem que resolver agora, não pode esperar por reforma política. Não no caso do senador (Marco Maciel), mas a reforma política é feita para nos distrair.

Após o seu nome aparecer no escândalo  das passagens aéreas, o senhor se afastou das questões mais polêmicas e, assim, do noticiário. O mergulho foi uma estratégia?
A pergunta é correta. Mas eu não fui denunciado, eu me denunciei. É diferente. Dei uma passagem para a minha filha e devolvi R$ 86mil. Agora, na verdade, esse mergulho foi em função do surgimento da crise do Senado e de uma análise que a gente fez de que não era possível intervir nessa crise da maneira como intervimos no momento do Renan Calheiros (PMDB/AL). Houve um episódio em que ele tentou fazer acertos secretamente e nós entramos, eu, o (Raul) Jungmann (PPS). Mas entendemos que não podemos substituir o Senado. Não fica bem nas nossas relações que a gente derrube o Sarney sem os senadores. Então, eu limitei a minha intervenção nessa crise ao Congresso. Se o Sarney aparecer na Câmara para uma reunião do Congresso, nós iremos enfrentá-lo. Eu até já fiz uma inscrição para fazer um discurso contra ele, mas ele não aparece mais.

Anteriormente, algumas bandeiras como legalização da maconha e a profissionalização da prostituição eram defendidas publicamente pelo deputado. O que mudou? Seria receio do impacto que isso poderia causar nas urnas em disputas majoritárias?
Estamos sempre com as prostitutas, defendendo a profissionalização. No caso da legalização da maconha é que passamos 30 anos defendendo e agora ocupamos outro papel... O de o que fazer caso ela seja legalizada. É preciso reformar a polícia antes de legalizar a maconha. No Rio de Janeiro, por exemplo, a polícia é um desastre. Em países onde a maconha foi legalizada não acabou o controle. Há um controle sofisticado em Amsterdã, por exemplo. Hoje, o nosso papel é de matar a cobra e não apenas de mostrar o pau.

 

 

NE no front da crise do Senado
RENATA BEZERRA DE MELO
 
O “alçapão” de denúncias em que se meteu o presidente do Senado Federal, José Sarney (PMDB-AM), além de fragilizar o comando do peemedebista sobre a Casa Alta, transformou ainda a tribuna e os microfones da instituição num terreno intensamente repisado por nordestinos. Eles são numerosos, 27 do total de 81 senadores, não economizam na oratória e eloquência, e suas vozes fazem-se cada vez mais altas, tanto na trincheira de combate à permanência do peemedebista no cargo, como na ala governista, que atua dia e noite, em plenário e nos bastidores, para blindar o cacique do Maranhão.

Diante de um Sarney constrangido e acuado, mas ainda assim “colado” na cadeira da presidência, decidido a resistir bravamente ao rolo compressor, eles não têm se feito de rogados na tarefa de “tocar” o barco. Os nordestinos assumiram papéis que os colocam na linha de frente da “novela” legislativa. Lotados no lado dos que defendem “com unhas e dentes” a continuidade aparecem: Renan Calheiros (PMDB-AL), Fernando Collor de Melo (PTB-AL) e Almeida Lima (PMDB-SE). No front oposto, postam-se: Sérgio Guerra (PSDB-PE), Jarbas Vasconcelos (PMDB-PE), Agripino Maia (DEM-RN), Tasso Jereissati (PSDB-CE), Cristovam Buarque (PDT-DF) - que apesar de ter carreira em Brasília é pernambucano - e o próprio olho do furacão, Sarney, é nordestino, do Maranhão, embora eleito pelo Amapá. Nota-se ainda a participação do pernambucano presidente Lula (PT), que não hesitou em aderir à batalha, tomando as dores do aliado maranhense.

O rol dos combatentes é engrossado por “soldados” das mais diversas regiões, naturalmente, mas esses extras não aparecem em maior quantidade. Contabiliza-se na tropa de choque de Sarney: Paulo Duque (PMDB-RJ) e Wellington Salgado (PMDB-MG). No anti-Sarney, somam-se: Arthur Virgílio (PSDB-AM), Pedro Simon (PMDB-RS), Álvaro Dias (PSDB-PR) e Aloizio Mercadante (PT-SP).

Afastando qualquer vala preconceituosa, seja pelos cálculos matemáticos, considerando que o Nordeste possui nove estados e o Sul e Sudeste juntos apenas sete, ou pelo desempenho político histórico dos nordestinos, o grupo vem se apresentando com algum realce sob os holofotes do plenário. Que seja revestindo ou acusando o presidente da Casa, a posição deles é a de capitanear com algumas exceções. Até o reservado Marco Maciel (DEM-PE), que pouco se manifesta, chegou a ser alçado à condição de interlocutor, junto a Sarney, com o objetivo de demovê-lo da idéia do “fico”. Foi levado em consideração, para tanto, o caráter conciliatório do democrata, apesar de a tarefa não ter sido levada a cabo.

“Independente do papel que Marco Maciel e Sérgio Guerra estão cumprindo - Maciel mais reservado e mais difícil é saber o que ele está pensando -, essa crise pode favorecer o sentimento de mudança. A crise pode vir a fazer com que o eleitor tenha um sentimento de mudança, de renovação, achando que votando em nomes novos isso pode contribuir para mudar. Mas a renovação tanto pode ser para o bem como para o mal”, analisa o cientista político Túlio Velho Barreto.

 

 

João Paulo enxerga porta para renovação
 
Como pando de fundo de todo engajamento dos políticos nordestinos na elaboração de um desfecho “honroso” para o escândalo dos atos secretos no Senado, abriga-se uma preocupação futura: a eleição de 2010. O pleito do ano que vem possibilitará a renovação de dois terços do Senado. Os pernambucanos Marco Maciel (DEM) e Sérgio Guerra (PSDB) encerram seus mandatos e devem concorrer à reeleição.

Outro possível candidato ao Senado, o secretário estadual de Articulação Regional, João Paulo (PT), acredita que a cena de crise “vai contribuir muito para a renovação” dos quadros. Por outro lado, faz questão de não regionalizar a conjuntura e argumenta que a questão tem que ser tratada “como o cenário real da política brasileira, independente do estado”. “Basta a gente ver o que está acontecendo no Rio Grande do Sul (caso da governadora Yeda Crusius-PSDB - acusada de desvio de verba pública)”, sublinhou o ex-prefeito do Recife.

O petista também não crê que o fato de Lula ter dado bençãos para que Sarney permaneça na presidência do Senado, seja capaz de borrar a imagem do presidente junto ao eleitor. “Acho que, para a população, está muito claro que a defesa de Lula é para garantir a governabilidade”, despistou.

O PMDB de Sarney é taxado como um partido fisiologista. No entanto, possui o maior número de cadeiras no Congresso, sendo, um importante aliado do Planalto na aprovação de projetos. Outro ponto fundamental na aliança entre o PT e o PMDB é o apoio que os peemedebistas podem dar à escolhida de Lula para sua sucessão, a ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff (PT). “Quantos adversários políticos nós vimos aqui juntos? Quem diria que Jarbas Vasconcelos estaria na mesma chapa de Roberto Magalhães?”, justificou João Paulo.

O secretário grifou a necessidade de não se usar a crise para taxar o Nordeste “como exemplo do que não presta na política brasileira”. E lembra: “No Nordeste, a coisa fica muito evidente porque foi marcado por uma política coronelista secular, onde sempre se utilizou da miséria e da pobreza do povo para se perpetuar no poder. Mas isso não se pode colocar fora de um contexto da política brasileira”.

 

 

Jarbas vê participação reduzida
 
Testemunha ocular dos episódios e integrante do front de combate à permanência de Sarney na presidência, o senador Jarbas Vasconcelos é convicto da necessidade de afastar o maranhense da presidência da Casa. Mas discorda que a ingerência dos nordestinos no processo de contorno da situação seja predominante. “Ainda acho que é muito pouco. Por ser uma região com tantos representantes, deveria ter peso maior ainda. Se você buscar, vai contar nos dedos os nomes (nordestinos) que exerceram a Presidência da República, vai achar Sarney e (o senador Fernando) Collor (de Melo), e Sarney nem sequer foi eleito presidente”, observa Jarbas. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, apesar de ter migrado para São Paulo ainda pequeno, é pernambucano, de Caetés, à época distrito de Garanhuns.

Jarbas reconhece que as bancadas do Nordeste na Câmara sempre têm marcado presença muito forte, “tanto na época da ditadura como da democracia”. E volta a ponderar com os números, focando no Senado: “Não vejo nada diferenciado no Nordeste (com relação à atuação na crise), porque é uma Região das maiores do País com nove Estados. Só o Nordeste tem um terço dos senadores, é natural que tenham destaque”.

O peemedebista alerta ainda o eleitor: “Acho que isso (a crise) pode despertar o sentimento no eleitor de que é preciso atentar cada vez mais para qualidade do voto, ver quem são os suplentes dos senadores. É preciso estar mais atento. Hoje, a comunicação é cada vez maior, mais presente. Então, não se informa bem se não quiser”.

Diante da postura do ex-prefeito do Recife e provável candidato ao Senado, João Paulo (PT), de atribuir a atitude de Lula de defender Sarney à necessidade de governabilidade, Jarbas rebateu. “Não tem nada a ver. Isso é um equívoco de João Paulo. Lula se apressou a chegar no Brasil do exterior para poder defender Sarney. Foi Lula que disse que Sarmey era incomum. Sarney na cabeça de Lula deveria estar acima da lei, da Constituição, do bem e do mal. Sarney é presidente do Senado com o apoio de Lula e isso vai ficar marcado na sua biografia para o resto da vida”, vaticinou.

 

Sérgio Guerra diz que não há regionalização
 
Ciente do buraco negro em que se transformou a crise dos atos secretos, o senador Sérgio Guerra vem demonstrando preocupação com os prejuízos políticos que isso pode acarretar para os membros da atual legislatura. Defensor da saída temporária de José Sarney da presidência do Senado, ele prefere a cautela de afastar a regionalização do debate. O cuidado visa evitar o risco de ver os parlamentares tachados como seguidores do bem ou do mal em função da região de origem. “Não vejo essa regionalização. No Nordeste, tem os senadores que se opõem e os que defendem Sarney. Os que se opõem são conhecidos e os defendem também, representam seus partidos e suas tendências”, assegurou.

Apesar do esforço em separar “o joio do trigo”, o tucano acabou vendo seu “time” acusado de efetuar um suposto acordo com os governistas para abafar as denúncias que atingiam o líder do PSDB no Senado, Arthur Virgílio (AM). O amazonense foi acusado de remunerar um funcionário de seu gabinete, que passou mais de um ano fazendo um curso nos Estados Unidos. Virgílio assumiu a culpa, está devolvendo o dinheiro, mas como foi autor de representações contra Sarney, o PMDB também entrou com uma, no Conselho de Ética, como forma de represália.

Depois de ameaças de aprofundar o esmiuçamento, o presidente do Conselho, o governista Paulo Duque (PMDB-RJ), se encarregou de arquivar o processo. O próprio Sérgio Guerra foi alvo por ter levado a filha Helena Brennand, a Nova York, para acompanhá-lo num tratamento de saúde. Pouco depois, a diretoria do Senado assinou ofício reconhecendo a legalidade do gasto de Guerra.

 

 

Proporção não explica tudo, diz cientista
 
“Por isso dizem que, é no Senado, onde há o equilíbrio”. Com essa observação o cientista Túlio Velho Barreto atribui à lógica matemática qualquer aparição mais frequente do Nordeste na Casa Alta. A evidência dos nordestinos na instituição não soa nem positivo nem negativo para ele, que recorre à relativização para apreciar a distribuição por regiões no Congresso. “O Senado representa a federação. Cada estado tem três senadores. A região que tem mais estados é o Nordeste. O Sudeste tem quatro estados, o Sul, três - são sete contra nove. O Centro-Oeste não tem nem metade dos estados e o Norte também. Dos 81, 27 são pernambucanos. Isso ajuda a colocá-los em evidência, mas não explica o todo, porque poderiam ser figuras absolutamente inexpressivas”, pondera Velho Barreto.

Ele diz enxergar com naturalidade e sem qualquer brilho especial o papel desempenhado por nordestinos em Brasília. “Sob a perspectiva de que Pernambuco tem vários personagens ocupando cargos importantes na Câmara e no Senado, é natural que num momento de crise eles despontem”, assinalou.

Na visão de Barreto, “Sarney é fruto do Senado e foi presidente duas vezes com apoio das pessoas que, agora, desejam tirá-lo para colocar o lixo debaixo do tapete”. “Sarney foi presidente pela primeira vez em 1996, disputou com Pedro Simon e Iris Rezende, venceu por larga maioria e foi feito presidente com apoio do PSDB e do PFL e a bênção de FHC. Em 2003, dos 78 senadores, 76 votaram em Sarney e são praticamente os mesmos de hoje. Sérgio Guerra, por exemplo, estava lá e seu partido apoiou Sarney também”, pontuou.

 

 

Itapissuma: racha em sete meses
Vice acusa prefeito Cal Volia de lotear secretariado com seus familiares
JAIRO LIMA
 
Bastaram sete meses de gestão, no município de Itapissuma, na Região Metropolitana do Recife, para haver rompimento político entre o prefeito Cal Volia (PSDB) e o seu vice, Carlos Pereira (PMDB). A ruptura partiu do peemedebista, que alegou dois motivos para o racha: a forte presença do nepotismo dentro da administração, além da suposta falta de cumprimento do Plano de Governo. Os reflexos das arestas formadas no Executivo chegaram à Câmara Municipal. O descrédito de uma silenciosa população de 22.439 habitantes, entre os quais, 16.781 eleitores, amarga sem culpa e opinião os imbróglios políticos.

Desde o início de seu mandato, o primeiro escalão conta com seis parentes do prefeito: Secretaria de Governo, com o pai do prefeito, Paulo Volia; a secretária de Ação Social e esposa do prefeito, Josinete Volia; Vilma Marques Volia, mãe do prefeito e secretária dos Secretários - espécie corregedora dos outros gestores; a Secretaria de Finanças está a cargo do primo Elano Rego Volia; a tia Marli Marques Volia é secretária de Educação; e o comprador do município é o irmão Frederico.

“O prefeito traiu o povo de Itapissuma. O nepotismo é uma prática utilizada sem o menor pudor no município. Hoje, sou barrado na Prefeitura. Só tinha acesso quando era secretário de Obras pelo período de três meses”, disse Carlos Pereira, que, ao sair, deixou a cunhada no cargo.

Ao romper, o vice carregou consigo quatro vereadores, que darão entrada com uma representação no Ministério Público de Pernambuco (MPPE) contra o prefeito. Alegarão que Volia não responde aos pedidos de informação dos parlamentares.

A presidente da Câmara Municipal, aliás, Izolda Pereira (DEM), é esposa de Carlos Pereira. Os vereadores José Dias, o Irmão Teca (PMN); Irmão Nivaldo (PMN); Lukinha Auto-Peças (PDT); André de Cuscuz (PSB) ainda chegaram a acompanhar o casal Pereira na investida contra Cal Volia.

“O prefeito enganou a população, que não consegue ser atendida pelo plano de Governo discutido e proposto nas eleições do ano passado. Minha esposa foi eleita por unanimidade presidente do Legislativo”, afirmou Carlos Pereira. O grupo, composto pelo vice-prefeito e vereadores, ainda acusa Cal Volia de enriquecer ilicitamente às custas do erário do município. “São imóveis, automóveis, trio elétrico, automotivos náuticos, que vieram a aparecer depois da eleição”, disparou o vice.

 

 

“Carlos Pereira sonha ser prefeito”
 
Abalizado pelo crivo da Lei, que não prevê obstrução para o nepotismo na esfera do Poder Executivo, o prefeito Cal Volia (PSDB) reconhece toda a escolha de parentes dentro de seu Governo. “O verdadeiro motivo para o rompimento por parte de Carlos Pereira (PMDB) é que ele não se conforma com o que Deus e o povo lhe deu: o mandato de vice-prefeito”, disse. O tucano acusa o mais novo desafeto de querer ocupar sua cadeira. “Carlos Pereira sonha ser prefeito. Apenas acho que ele deveria querer chegar a isso pelas vias legais, como consegui em conjunto com ele mesmo. Ele já é candidato à próxima eleição municipal, em 2012, mas deve esperar seu tempo. Carlos Pereira está muito apressado”, aconselhou.

A mais recente atitude para minimizar o nepotismo foi feito pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), através de um decreto federal. Nele, o presidente obriga os ministros e ocupantes de altos cargos comissionados a declararem, no prazo de 60 dias, se têm parentesco com alguém do Executivo Federal que ocupe cargo em comissão, de confiança ou como estagiário, funcionário terceirizado ou consultor de organismo internacional, prestador de serviço para o órgão que trabalhe. O objetivo é criar uma regra própria para coibir a contratação de parentes. Contudo, coibir não resolve. O nepotismo é proibido apenas para o Poder Legislativo.

Para o prefeito, os entraves com o seu vice não devem trazer problemas à população local. “Acho que não teremos tanto prejuízo. Sei que ele vai trabalhar, de toda forma, para conseguir conquistar os eleitores da cidade. Também estou trabalhando cotidianamente para atender ao povo que me elegeu”, analisou.

Além do dispositivo de que está sob a legalidade para fazer uso do nepotismo, Cal Volia remete à competência de seus nomeados. “Todas essas pessoas já têm uma vasta experiência. Minha mãe é concursada, por exemplo”, avisou. O prefeito ainda recomendou ao seu vice tentar fazer suas articulações pela Câmara Municipal, já que tem sua esposa, Izolda Pereira (DEM), na presidência. “A Câmara tem um orçamento de R$ 180 mil”, contou.

 

 

Plano gera mais divergências
 
A falta de andamento do Plano de Governo do município foi outro motivo alegado pelo vice-prefeito Carlos Pereira (DEM) para ter culminado na segregação com o prefeito Cal Volia (PSDB). O peemedebista reclama da lentidão do processo de execução dos projetos e promessas de campanha. “Fico incomodado com o não-funcionamento de programas que tínhamos acertado durante a campanha. Agora ficou ainda mais difícil, não teremos espaço algum. Se já não tínhamos quando eu era secretário de Obras, posso imaginar como vamos ficar agora que estamos com as portas totalmente fechadas. Ficamos desqualificados dentro da gestão”, prevê.

O mesmo incômodo não sente o prefeito Cal Volia (PSDB). “Não me sinto incomodado com nada. Nosso Plano de Governo é extenso, não podemos executar tudo em sete meses. Acho que ele se precipitou, reclamou antes do tempo”, respondeu. O tucano enumerou obras da sua administração, como a reforma do sítio histórico, a revitalização de espaços culturais, além da promoção de atividades profissionais e abertura de locais para cursos profissionalizantes. “Carlos Pereira me ajudou a conceber o Plano de Governo. Então, se ele reclama do Plano, também está falando dele mesmo, mas estamos andando com isso”, disse.

Mesmo com todas as explicações do prefeito, Carlos Pereira continuará reclamando da exclusão da oposição, da qual agora faz parte, ao Governo de Cal Volia. “Tem muita gente sendo retaliada. Já tivemos servidores fazendo protesto e tendo o ponto cortado, isso nos revolta”, revelou.

O embate entre os ex-aliados é acompanhado nas ruas, mas as pessoas procuradas pela reportagem não quiseram declarar nada. As razões apresentadas foram: ou eram funcionários, ou tinham parentes empregados na Prefeitura.